[ (des)construção ] .-a vertiginosa dança dos átomos





boris indrikov




a dança inspira-te na voragem da lua e
tu – andrajo de peregrino - vestes os poemas
a fim de purificar os
*

átomos invisíveis que à tona de água
balançam .Dionysios bebe .Phebo adormece
.Orpheu
verte na lira um véu de assombro e
*

quando os halos se deslaçam pelos caminhos
*

a terra
acolhe no seu ventre a semente alçada em
brisa néctar pólen ou vinho fermentado

*
corpos fragmentados em respiração ofegante
deslaçam-se amantes projectados sobre as pedras



[ (des)construção ] .-a contra-ordenação dos afectos





humberto de jesús




incita-me a página em branco

despojo de guerreiro deixado
sobre a bancada .um sopro másculo
*

a minha pele inspira .respira sob
os auspícios de um deus que guardo
na epiderme quando a derme o
*

abandona

.deixa-me um rasgo de fascínio breve
*


a mácula em cópula assumida na
vocalização dos afectos

havidos em contra-ordenação



[ (des)construção ] .-habito o lugar comum





federica erra




não sou o antes nem o depois
sou o agora
*

o sim e o não
o repúdio o asco e o vómito
*

talvez semente criadora em lira
.a escada
*

.o vinho azedo .a maré cava



[ ( des )construção ] .-dormir na Poesia … acordada?





joanna chrobak




subleva-se a vassalagem
*

uma mão vazia
outra mão cheia de nada
*

uma faca de dois gumes
*

escrava
em voz de aranha cinzelada



[ (des) construção ] .-o lugar do morto





boris indrikov




saio devagar porta aberta ao grito
ao espanto grado de não estar ali
*

um lugar morto onde me acompanham
fados .risos .palavras

silêncios
*

um acordar já tarde .cobiçados os
sonos nas gargalhadas banidas
*

regurgitam desertos famintos os dedos
e as mãos que se estendem
retornam vazias
*


do lado de fora a noite é o manto
a cadência o uso o negrume e o

trilho desmente o rasgar dos címbalos



[ (des)construção ] .-desminto a ironia desconstruindo-a





darren hopes




variações ao tom ao ritmo e ao acaso
à volúpia transitória que percorre
o espaço
*

ilusão aparente de sermos um corpo
igual na variável tempo
*

um ser a mais
*

um ser equivalente

arrastando o esqueleto sob o clic e a noite
.dúbias voragens em passos e cinzas
.a euforia tangente
*

não obrigada
*

o silêncio é a rota
onde certa me afundo e no regaço do vento

fermento
a semente .ferida aberta onde o mosto coalha
*



Leitura do poema "Enquanto Alguns Sonham com Poetas" ,de Gabriela Rocha Martins








excelente interpretação do meu poema ,por Luís Perdigão ,quando da apresentação da Antologia "Entre o Sono e o Sonho ,vol. V ,no passado dia 22 de Março ,no Salão Preto e Prata ,do Casino Estoril
.grata ao Luís e à Chiado Editora pelos belíssimos trabalhos.


[ (des)construção ] .-quando a tarde me arrefece o juízo





yefim shevchenko




canto-me num salto morno
no frio agreste que me toma o mando
*

sob a cantata de um violino ao longe
.alguém deixa vestígios de mal querer
em restos percalços ou sobressaltos

um estar a sós no meio de muitos
um voltar a trás obrigatório
*

um gosto acre .um delírio breve
.um aparvalhar de nós num estar a sós
*

ninguém me doma .sou indiferente
*

ao não gostar quando o gostar ofende
.restos de gente .solidões a muitos .vozes
a mais num lugar gentio .cantos vadios

.toques bravios .esgares somente
*

num acordar precoce



em destaque...........




( acabada de chegar via email )




Ausência de uma Poetisa presente!...

Notada que é a falta de Poemas recentes, ainda que nunca a falta de Poesia no "cante.chão", espero que tudo esteja bem com a Gabriela Rocha Martins!...
Aguardo novos Poemas e inquietudes poéticas!...

Abraço,
Pina A.


[ (des)construção ] .-enquanto alguns sonham com poetas*





darren hopes




rendo-me à sequência robótica .ponto
final .jogo intermitente onde a gnose
oscila .redundante
*

um resquício oblíquo abriga-se

no parêntese entre a boca e as palavras
ou no limite enlaçado onde o lápis
defere

o golpe à imagem
*

a harmonia exige-se como vertigem e
os halos ousam-se na real proporção da esfinge
.perfeito

o enigma consente-se num rasgo de poema
.convencimentos à parte o robot impõe-se numa
sequência de ases
*

respiração defeituosa .ponto final
.parágrafo





*publicado na Antologia "Entre o Sono e o Sonho ,vol. V" ,Chiado Editora.


[ (des)construção ] .-em tempo de pausa





darren hopes




inusitada
mente
insisto na necessidade de dizer
não não e não
*

o sim enlouquece



[ ( des)construção ] .-tenho-me no absoluto da cor





igor voloshin




se te cantar azul tenho-me índigo e
arrisco na tela a cor finita .um brado em
tempo de saldos .um resto volúvel

e um sobressalto
*

onde se entorna o balde e o poço arrefece



[ (des)construção ] .-na poalha de um tempo vadio





alina mayboroda




na poalha do tempo onde o silêncio amora
a poeira levanta-se .a ansiedade incita
*

a escrita acontece

e no momento seguinte prendem-se os galhos
no declive das fontes
*

cansam-se os motes .na construção de um ponto
a criação desmente o cravo e a pauta
*

a música acontece

desafios de cantos onde o instrumento se
insurge na ode seguinte .impõem-se as Musas
quando os deuses se calam
*

vazios de sentido
num recurso maldito .o verso inscreve-se
*

e o poema acontece



[ (des)construção ] .-vadiagem de sentidos





tatiana struckova




bastardia de sentimentos no sussurro
do vento .augúrios de olhos rasos no
declive dos sons .cúmplices vergam-se
*

as noites em fúlgidos olvidos

onde o estertor selvagem sagra a
fúria dos castos .na cumplicidade dos
deuses cruzam-se traços .lamentos ou
*

salmos que na gleba se recolhem e na
memória dos deuses desafiam a ferro
e fogo espúrios enlaces
*

golpejos de anjos

delírios cegos na
vadiagem dos gentios morrentes



[ (des)construção ] .- no estertor do vento norte





alexander dolgikh




um tempo escasso .baço .esquisso de
segredo escorchado em verso livre
*

sopro de poema vadio ou atentado à
volúpia que escorre pelas arcadas do templo
*

ressoam ecos .oficinas de copistas
enquadradas em iluminuras quinhentistas
.rasgos alquímicos onde o conhecimento
demora
*

e no coruchéu da verve
*

soltam-se os véus .desmontam-se as tendas
.maldizem-se os poetas no riso nocturno


impacientes