Quarta-feira

[em tempo de folhas mortas] .fora de horas

às vezes os corpos flutuam num silêncio rasgado
à espera de um pouco mais de fresco
como se a premonição de morte
se inscrevesse nos dogmas nocturnos
alguém procura desenhar no vento
um rio de poemas e
deixá.lo seguir os movimentos
dos dedos e das canetas
como um leito de chamas
que se ateia em corpos ressequidos

quem infringe a rima fora da linha do horizonte?

há movimentos a mais nas folhas que se entregam à tinta
quando a aridez se confunde com a fornalha
de um vulcão que se reacende
há um mestre nado morto
oscilante entre o silêncio e a larva bruta
que tudo devora
como se o pouco que resta do silêncio
fosse o húmus
inscrito na radiografia
do poeta tuberculoso e louco
o apocalipse é a visão que aflora
a água ou o fruto proibido
que dos versos brota
no crepúsculo dos dias ousados
como na mente do poeta as palavras
oscilam entre a razão e a insanidade
tudo se confunde no cansaço
de uma tarde onde se existe sem se saber
como
ou porquê

quem ousa acordar o sono fora de horas?

-nina ghisetti.

the secret

Domingo

[em tempo de folhas mortas ] .nota prévia



deixaste sobre a minha secretária uma nota
não assinada -

des necessária

- não responderei à chuva
… sim!
há uma chuva irritante que cai dentro das palavras
fá.las escorrer e a folha
inicial
mente
colorida com caracteres uniformes
re toma a virgindade inicial
a fim de se desnudar aos vagabundos
aos dissidentes
às prostitutas e
aos marginais in tolerados

( sabes que os prefiro aos seres perfeitos
re vestidos de tristes memórias e palavras idênticas
)

transgressores dos ritos escrevem
com os corpos textos proibidos
e sangram cidades
bairros e subúrbios

há uma sintonia perfeita entre eles e
os ponteiros do relógio

são mortais



-ankemerzbach.
Sexta-feira


apaguem.me se forem capazes
arquivem.me se vos chegar
eliminem.me se vos aprouver
riam.se
cortem.me as mãos
mesmo prisioneira construirei à minha volta
uma miríade de poemas
que os senhores do mundo -

os homens práticos

- serão incapazes de legitimar

serei um argonauta
herdeiro de poetas emissários
inscrito nas estrofes do tempo

mutilem.me senhores audazes!



-andrew grant.
Terça-feira

[em tempo de folhas mortas] .trinta dinheiros


não sei se tenho cabeça
se tenho corpo e membros
mas sei que quando me olho a um espelho
vejo uma imagem que se foi adulterando
ao longo do tempo
hoje tem rugas
o cabelo mais claro

que importância tem o invólucro?

faço parte de um todo
que não escreve em vão
talvez seja a única certeza que tenho
sou o verso de um poema convocado
pela tentação dos deuses
a um encontro final
a outra parte submerge
algures no universo das folhas caducas
onde cada um de nós é a pata de uma aranha secular
fazendo da palavra a teia
onde se inserem as constelações/poemas
as páginas/sonhos
as armas/revoluções
os cães democratas e
o riso aberto das noites
capazes de passar incólumes
à memória absurda dos especialistas
de portas escancaradas à compra

.trinta dinheiros - é comprar!

vomito

somos
-os alquimistas que se ousam
. em pontos finais e vírgulas
. em lombadas de livros
. em palavras e páginas azuis e

. cujas gargalhadas não constam de acordos

-crianças velhas que
. exigem palavras novas ou
. loucos insurrectos prenhes de poemas virgens


-frida kahlo.

heresia

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no murmúrio do vento há uma litania de sons que se adentram
serão meras repercussões ,contributos ou dízimos devidos a Hélios?
heresia

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Domingo

tribute to glauco datti

toda a verdade inédita começa como heresia para acabar em ortodoxia
-Thomas Henry Huxley.